Luciano Carlos Cunha

Luciano Carlos Cunha: Doutorando em Filosofia pela UFSC, mestre em Filosofia pela mesma universidade; autor do blog Desafiando o Especismo (www.lucianocunha.blogspot.com), colaborador dos sites Olhar Animal (www.olharanimal.net) e ANDA (www.anda.jor.br), e co-autor da obra Educação & Direitos Animais (ed. LibraTrês, 2014).

 

Segue abaixo a entrevista que o filósofo concedeu a LIGA ANIMALISTA.

 

LIGA: Como o sr definiria educação vegana?

LUCIANO CUNHA: Depende do que se está a referir por “educação vegana”. Eu imagino que o que você queira dizer com o termo seja a educação no sentido de se difundir os argumentos para se reconhecer o dever de respeitar os animais não humanos. Se é esse sentido, acredito que um nome mais adequado seria educação anti-especista. Minha preocupação com o termo “educação vegana” é o seguinte. O termo veganismo é, em geral, entendido como a prática de não se alimentar de produtos oriundos da exploração animal. É claro, a prática do veganismo parecer ser uma implicação óbvia do anti-especismo: se alguém reconhece que os animais não humanos devem ser respeitados, vai reconhecer que tem o dever de não prejudicá-los (não causar seu sofrimento e morte, por exemplo) através do uso. Mas, o contrário não necessariamente é verdade. Existem muitas pessoas que são veganas (ou seja, não consomem produtos de origem animal), mas defendem o especismo, da mesma maneira que é possível alguém não ter escravos e ainda assim ser racista.

Existem muitas coisas especistas que muitos veganos defendem. Por exemplo, inúmeras vezes defendem que não causar morte e sofrimento aos animais não humanos é algo permissível, mas não requerido. Isto é, enxergam não matar os animais como algo moralmente opcional (como vestir uma blusa cinza ou uma amarela, por exemplo), ou como algo louvável, mas não moralmente obrigatório. O jargão que usam é “assim como eu tenho direito de ser vegano, outras pessoas têm o direito de comer os animais se quiseres”. Isto é, estão a defender os direitos dos veganos, mas não os direitos dos animais. Eles não parecem acreditar que alguém está a cometer uma injustiça (muito menos uma injustiça grave) quando se causa sofrimento e/ou morte de animais não humanos para consumi-los. Mas, obviamente pensariam diferente se as vítimas fossem humanos.

Muitas vezes, defendem também que reivindicar o dever de abolir o uso de animais é fazer uma imposição injustificada aos que consomem os animais. “Você está impondo o seu ponto de vista” é o slogan comumente pronunciado. Ou seja, apesar de a prática deles ser diferente daquela dos que consomem animais, a visão moral deles é exatamente a mesma: a de que causar morte e sofrimento aos animais não humanos é algo moralmente permissível: quem não quiser fazer, está justificado a não fazer; quem quiser fazer está justificado a fazer. Ou seja, apesar de serem veganos, estão a defender o suposto “direito” dos humanos assassinarem, torturarem, escravizarem os não humanos. Consideram argumentar a favor de um tratamento justo dos animais uma imposição injustificada, mas não consideram uma imposição injustificada causar morte e sofrimento aos animais. Obviamente que isso é completamente arbitrário.

Ninguém, seja vegano, seja não-vegano, defende que causar morte e sofrimento aos humanos é algo moralmente opcional ou louvável. Mas, as razões que explicam o porquê de ser injusto causar a morte ou ferir a integridade física de humanos (o fato de a vítima ter um prejuízo grave caso isso aconteça, seja pela presença de sensações negativas como o sofrimento, seja pela ausência de sensações positivas, que vêm com a morte, por exemplo) explicam ao mesmo tempo porque é injusto fazer as mesmas coisas com qualquer outro ser capaz de padecer daqueles prejuízos. E isso inclui qualquer ser senciente, independentemente de espécie.

Existem veganos que são contrários a dar direitos legais para os animais não humanos (novamente, dizem que fazer isso é uma imposição injustificada sobre aqueles que desejam violar a integridade física dos animais não humanos), mas são favoráveis a direitos legais para os humanos (nenhum deles abdica dos direitos legais que tem, pelo menos). No entender deles, seria justificado argumentar com alguém com vistas a convencê-lo a respeitar os animais, mas, se posicionam contrariamente a se tentar medidas legais para proteger os animais não humanos, com base na alegação de que isso seria fazer uma imposição injustificável sobre os violadores. Novamente, no contexto humano quase ninguém pensa assim. Ninguém pensa que as leis anti-estupro fazem uma imposição injustificada aos estupradores, por exemplo. E, mesmo se fosse o caso de tais medidas serem defendidas quando humanos são as vítimas, isso parece envolver uma parcialidade extrema a favor do violador.

Existem também veganos que defendem apenas deveres negativos (evitar de praticar atos danosos) para com os não humanos, mas defendem que, quando as vítimas são os humanos, temos também o dever de prestar ajuda. Mesmo quando, dentro do movimento vegano, reconhece-se algum tipo de dever positivo diante dos animais não humanos, isso resume-se danos provocados pela exploração. Em se tratando de danos provocados por processos naturais (morte por inanição, predação, catástrofes naturais, parasitismo, doenças, etc.) pelo menos quando se está a falar de animais silvestres, a maior parte dos veganos não apenas defende que não há o dever de prestar ajuda, como defende que seria moralmente errado ajudar. Mas, quando as vítimas são os humanos, todos nós reconhecemos que, não apenas estamos justificados nos defendermos ou defendermos outros humanos das situações acima, como também geralmente reconhecemos que isso é um dever. Mas, todas as razões que explicam porque há permissibilidade ou dever de ajudar quando as vítimas são humanas oferecem iguais razões para ser permissível (ou até mesmo um dever) quando as vítimas pertencem à outras espécies.

Por fim, muitos veganos, inclusive alguns abolicionistas, não parecem estar preocupados com a distribuição igualitária. Parecem entender que nossos deveres perante aos animais não humanos seria abolir o seu uso, mas parecem também  não se preocupar com situações de desigualdade que não provém do uso. Obviamente, uma situação onde, sendo todos inocentes, alguns estão muito bem e outros estão muito mal é uma situação injusta, independentemente de essa desigualdade ser ou não resultado da escravidão. No contexto humano, a maioria de nós reconhece que uma situação de desigualdade é injusta. Quase ninguém fala: “já abolimos a escravidão humana; não temos mais deveres nenhum para com eles”. Mas, por vezes abolicionistas da exploração animal defendem algo assim para com os animais não humanos. Claramente isso é especista. Assim sendo, rejeitar o especismo implica praticar o veganismo, mas, vice-versa, infelizmente, não acontece.

Então, a necessidade não é apenas educar para o veganismo. É educar para se rejeitar o especismo e para dar respeito pleno aos animais não humanos. Então, a pergunta central seria: “como você define a educação anti-especista?”. Eu definiria como: apresentar as razões, os argumentos que explicam que dar uma consideração menor a seres sencientes que pertencem a determinada(s) espécie(s) é uma forma de discriminação, e, portanto, uma injustiça”.

LIGA: Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não-formal, realizada pelos ativistas em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas e tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro ‘Educação Vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio’, ele afirma que por enquanto a formal só é realizada no Brasil, o sr, concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

LUCIANO CUNHA: Eu não tenho muito conhecimento do que está a acontecer em outros países em termos de educação formal. Então, não tenho como dizer se a educação anti-especista formal só é realizada no Brasil. Existem cadeiras específicas sobre ética animal em cursos de filosofia em universidades no Brasil e no resto do mundo, mas, em relação ao ensino médio, até hoje o único exemplo que vi de um tratamento da ética animal durante o ano letivo inteiro, como componente curricular, é o trabalho realizado pelo professor Leon Denis. Espero que esse exemplo gere frutos, e, cada vez mais, esse tema faça parte do “currículo oficial”, já que é uma das questões mais discutidas na filosofia nos últimos quarenta anos.

Eu concordo com a divisão entre educação formal e informal, embora seja importante ressaltar que isso não significa que uma forma seja necessariamente mais bem embasada (com melhores argumentos) do que a outra. Obviamente, o que se espera de um ensino acadêmico sobre um tópico é que o professor conheça bem a argumentação em relação ao assunto que está a trabalhar. Mas, é possível que um determinado ativista, que não é filósofo por profissão, mas tem o hábito de ler sobre o assunto e avaliar os argumentos, tenha por vezes uma base teórica mais bem fundamentada do que determinado filósofo profissional.

LIGA: Uma critica muito comum aos educadores veganos é direcionada ao uso que eles fazem em sala de aula de vídeos que exibem imagem de animais não-humanos sendo torturados e assassinados como: A carne é fraca, Não matarás, e Terráqueos. Como o sr. avalia essa critica?

LUCIANO CUNHA: Depende da razão para se fazer tal crítica. Existe uma razão que considero válida, e outra que considero inválida. Infelizmente, imagino que as críticas surjam mais da razão inválida do que da válida. Vou falar primeiro da razão válida.

Pessoalmente, tenho também críticas a esses documentários. Reconheço que eles possuem muitos pontos positivos, e um deles é mostrar a realidade da vida dos animais criados para serem usados como recursos, que é sofrimento extremo desde o momento do nascimento até o momento da morte. Minha crítica é, novamente, quanto aos argumentos. Muitos desses documentários dão a entender que o sofrimento e/ou a morte dos animais não é suficiente para haver a obrigação moral de abolir o uso de animais. Dão a entender que, diante da quantidade gigantesca de mortes e de sofrimento extremo que passam os animais, ainda assim, para ver se há ou não o dever de abolir tal imposição de sofrimento e morte, temos de perguntar sobre o impacto ambiental, sobre se comer animais é ou não saudável, se experimentar em animais é ou não eficaz, se consumir animais é ou não natural, etc. Ninguém defenderia uma coisa dessas se as vítimas fossem humanas. Dão a entender também que essa é uma questão sobre ser bondoso ou amoroso, e não que estamos a ser extremamente injustos se não os respeitarmos.

Ninguém diria que eu sou uma pessoa  bondosa e amorosa só porque não joguei uma bomba em um lugar onde moram seres humanos. Se eu fizesse isso, eu estaria sendo injusto, mas, se eu não faço, eu não estaria fazendo nada para além da minha obrigação mínima. Não estaria fazendo nenhum ato louvável. Mas, se os próprios documentários que visam defender os animais mantém a visão de que, se escolho não assassinar ou torturar um animal não humano, estou a fazer algo para além do mínimo que seria justo, ou, se esses documentários afirmam (ainda que de maneira indireta) que o sofrimento e/ou morte dos animais não é suficiente para se considerar tais práticas injustas, então algo está muito errado com a argumentação desses documentários.

Além disso, alguns desses documentários dão a entender que o erro está somente no fato de haver sofrimento durante o uso. É claro, haver sofrimento torna tudo muito pior. Mas, muitas vezes, dá-se a entender que, se não houvesse sofrimento, os assassinatos estariam justificados. Mas, obviamente, ninguém aceitaria tal desculpa se as vítimas fossem seres humanos (imagine por exemplo, alguém dizendo “eu sou bondoso, compassivo e amoroso, porque quando assassinei aquele ser humano para comer sua carne, eu apenas assassinei, mas não torturei antes”). A morte é um prejuízo porque elimina a possibilidade de se desfrutar de experiências positivas, e esse prejuízo é possível para todo ser senciente que possui possibilidade de desfrutar de experiências positivas, e não apenas para humanos. Assim sendo, as razões que explicam o que há de errado, nos casos em que é errado, matar seres humanos, explicam igualmente o que há de errado em matar seres sencientes de outras espécies, nas mesmas circunstâncias.

Feita essa ressalva, acho que esses documentários no geral mais ajudam porque trazem à tona essa questão (além de serem bons em termos de descrição sobre o que acontece com os animais) o que muitas vezes faz as pessoas irem atrás de mais informações, melhores argumentos.

Mas, como disse, imagino que as críticas geralmente venham de uma razão inválida. Imagino que a crítica geralmente venha do fato de se estar a mostrar o que acontece com os animais, e, já que o que acontece são coisas altamente monstruosas, as pessoas fiquem chocadas ao ver essas cenas. Bom, se esta é a crítica, eu fico me perguntando por que é que essas pessoas estão contra quem está a mostrar a injustiça e a reivindicar que se pare de cometer a injustiça, e não contra a injustiça mesma. Obviamente que as pessoas tem a obrigação de ver essas cenas. Antes de tudo, é importante lembrar: são elas que estão a causar essas cenas. Acredito que as pessoas estejam a dar uma desculpa para não pensar no assunto. Se alguém for realmente sensível ao ver essas imagens, só por saber que tal coisa acontece a pessoa já se tornaria ativista, e jamais reclamaria de alguém mostrar essas imagens com vistas a convencer mais pessoas a pararem de cometer tais injustiças. Por outro lado, se a pessoa se sente chocada ao ver tais imagens, mas não se sente chocada em causar as monstruosidades que as imagens mostram, então talvez a pessoa não esteja sendo sincera ao relatar que fica chocada.

Uma objeção que se poderia dizer é que mostrar essas imagens a crianças pode traumatizá-las. Talvez, estrategicamente, não seja lá muito importante mostrar essas imagens às crianças. Isso acontece porque, na maioria das vezes, por incrível que pareça, crianças (pelo menos até certa idade) são geralmente muito melhores em termos racionais, em termos de avaliar argumentos, do que adultos. Isso acontece porque crianças por vezes gostam de perguntar sobre o porquê das coisas. Querem justificativas. Querem razões que mostrem por que é assim e não de outro modo. E mais: elas querem razões que realmente justifiquem a conclusão em questão, e não “desculpas esfarrapadas”. Provavelmente não vão se contentar com respostas como “isso é uma tradição” ou “isso é natural” ou “isso acontece desde sempre” ou “tudo é muito relativo”. Vão perguntar “por que tem-se que respeitar algo só por ser tradicional, natural ou por acontecer desde sempre?”; “por que você diz que é tudo muito relativo?”, etc. Da experiência que tenho com crianças pequenas, só por saberem que um ser senciente foi morto para produzir o alimento delas, a grande maioria já se posicionaria contrária a essa prática. Penso que estimular esse senso crítico, com as crianças (e, não apenas com elas), seja mais importante (e, melhor em termos de eficácia para ajudar os animais) do que mostrar vídeos. Mas, infelizmente, já na adolescência, muitos perderam a curiosidade de perguntar o porquê das coisas, pedir por justificativas, e passam a reproduzir qualquer preconceito vigente. Talvez, no caso dessas pessoas, mostrar os vídeos sirva para lembrá-las da monstruosidade que estão a causar.

Mas, supondo que não fosse assim. Supondo que tivéssemos que mostrar esses vídeos para essas crianças e que isso fosse deixá-las chocadas. Acredito que, ainda assim, haveria justificativa para mostrar tais vídeos, se fazer isso fosse a única maneira de evitar a morte e o sofrimento de muitos animais (por exemplo, se ficar chocado com as imagens fosse fazer esse alguém ser vegano e ativista). Isso é assim por uma simples questão de justiça: se temos de escolher entre duas opções de decisão prática, sendo que as duas causam dano, devemos escolher a que causa menor dano. “Menor dano” pode ser entendido tanto como uma função do dano sobre cada indivíduo, quanto do número de indivíduos que serão danados. E, obviamente, o dano de se nascer e viver uma vida inteira em uma granja industrial, é infinitamente maior do que ver um documentário e ficar chocado. Se alguém duvida, basta perguntar o que escolheria agora: ver um documentário e ficar chocado, ou ficar no lugar dos animas na granja industrial. E, se contarmos também o número de indivíduos, o número de animais danados com o fato de alguém consumir produtos de origem animal é infinitamente maior do que o número de pessoas que ficariam chocadas vendo os vídeos. Isso é assim porque cada pessoa mata muitos animais durante a sua vida, devido ao que consome. Assim sendo, se alguém escolher causar o dano maior ao invés do dano menor, só porque as vítimas em um caso são de uma espécie e em outro caso são de outras, está sendo altamente injusto, já que a razão óbvia para não se causar dano é o fato de o dano ter valor negativo, e isso é totalmente independente da espécie da vítima.

Mas, felizmente, há inúmeras maneiras de se divulgar os argumentos a favor do respeito pelos animais não humanos. Penso que os ativistas deveriam procurar investigar o que é melhor em termos de custo/eficácia. Ainda há pouca pesquisa nessa área, mas, já há alguns estudos sobre que tipo de abordagem é mais eficaz em termos de mudar as atitudes práticas a longo prazo com relação aos animais. Não conheço a fundo essas pesquisas, mas, me parece que estudos recentes estão a indicar que uma combinação dos argumentos anti-especistas (e não argumentos indiretos como o do impacto ambiental, saúde, ineficácia dos experimentos, etc.) com imagens mostrando o sofrimento é mais eficaz tanto a curto prazo para fazer as pessoas pararem de consumir animais quanto a longo prazo, para continuarem sem consumir e defendendo o fim do especismo. Um exemplo seria esse estudo: http://www.vegfund.org/blog/wp-content/uploads/VegFund-Video-Survey-Results-Final-Report-October-2012.pdf

LIGA: Que implicações para causa animal podem vir da falta de fundamentação teórica dos ativistas?

LUCIANO CUNHA: Acredito que há várias implicações negativas. Citarei apenas as implicações que acho que são as mais constantes. Penso também que essas implicações não se devem apenas a uma falta de fundamentação teórica, mas devido a uma dificuldade (que também pode vir de falta de fundamentação teórica) de levar em conta o ponto de vista da vítima em uma situação. Parece que existe uma tendência, infelizmente, de as pessoas se identificarem com o agressor, e não com a vítima. Mesmo ativistas da causa animal constantemente, dependendo das circunstâncias, parecem não se importarem nem um pouco com o sofrimento e morte dos animais. Vamos então às implicações negativas:

(1) Ativismo especista

Acredito que um dos grandes problemas do movimento de defesa animal no momento é a reprodução, mesmo que inconsciente, de uma mentalidade especista, nas campanhas. Na grande maioria das vezes, pelo menos no que eu tenho conhecimento sobre panfletos e campanhas, a mensagem passada nunca é de respeito direto pelo animal (muito menos de respeito igualitário). É quase sempre: “seja vegano porque é bom para sua saúde”, “seja vegano porque é bom para o meio ambiente”, “seja contra a experimentação animal porque é um método que pode colocar a sua saúde em risco”, “esse experimento é errado porque não é necessário”, “não torture animais porque isso será um aprendizado para torturar humanos”, “por que não pega a faca e mata o animal você mesmo?”, “não coma animais porque não é natural”, etc.

Mas, essas mesmas pessoas, se tivessem que explicar o erro com o holocausto nazista, não diriam: “seja contra o holocausto porque é bom para a sua saúde”, “seja contra o holocausto porque a fumaça do incinerador prejudica o meio ambiente”, “seja contra os experimentos nazistas porque isso pode colocar sua saúde em risco”, “é errado fazer esse experimento em seres humanos porque já existem alternativas a esse experimento”, “torturar judeus é errado porque é um aprendizado para torturar arianos”, “quer matar um judeu? Pegue a metralhadora e mate”, “é errado matar outros humanos porque isso não é o natural da nossa espécie”. Claro que não. Isso seria absurdo. Quando as vítimas são os seres humanos, quase todo mundo reconhece que o erro fundamental com a discriminação está no fato de ela ser injusta para com as vítimas, e isso não tem nada a ver com o fato de ela ser ou não natural e beneficiar ou não o explorador, se é ou não necessária, ou se o explorador tem ou não coragem para matar a vítima com as próprias mãos, etc..

Nenhuma campanha contra o estupro diz que a razão para não estuprar é o perigo do estuprador pegar uma doença sexualmente transmissível. Nenhuma campanha anti-racismo diz que a razão para se respeitar os negros é que isso é melhor para os brancos. Imagine que absurdo seria uma campanha contra a discriminação de gênero dizer que a razão para se respeitar as mulheres é que isso seria vantajoso para os homens (e, imagine ainda o quão absurdo seria alguém esperar que uma campanha assim faria as pessoas mudarem a consideração que têm pelas mulheres).

Mas, quando as vítimas são os animais não humanos, quase todo mundo, incluindo muitos dos ativistas, parece acreditar que o sofrimento e morte dos animais não é suficiente para as práticas especistas serem injustas. Isso é perceptível na abundância do uso de argumentos indiretos. O que isso mostra? Em alguns casos, mostra que, embora as práticas dos ativistas veganos e dos consumidores de produtos de origem animal seja diferente, a mentalidade dos ativistas, infelizmente, parece ser tão especista quanto a mentalidade daqueles com quem eles visam dialogar. Isso é assim porque se essas pessoas consideram relevante para se adotar o veganismo outras considerações (se é ou não natural, se causa ou não impacto ambiental, etc.) que não simplesmente o enorme prejuízo para as vítimas, é porque não consideram esse sofrimento e morte como suficiente para a prática ser injusta, e pensam assim porque as vítimas não pertencem à espécie humana

(2) A estratégia dos deveres indiretos

Em outros casos, os ativistas reconhecem que a discriminação da qual os animais não humanos padecem é suficiente para tornar tais práticas injustas. Isto é, reconhecem que, independentemente do impacto ambiental da produção de animais, de se comer animais é ou não natural, de se a experimentação animal é ou não eficaz, a prática de discriminar contra membros de outras espécies é injusta, e deveria ser abolida. Contudo, na prática, adotam as mesmas estratégias de quem mantém que essas outras considerações indiretas são relevantes para se saber se a exploração animal deveria ser ou não abolida. E, o motivo para adotarem tal estratégia é que acreditam que, difundindo argumentos indiretos, seria mais fácil e rápido conduzir as pessoas a adotarem práticas que, por tabela, beneficiariam os animais. Por exemplo, eles pensam: “as pessoas não vão ligar para o sofrimento dos animais, mas ligam para o impacto ambiental, então, vamos mostrar que comer carne causa impacto ambiental negativo”.

A adoção desse tipo de estratégia mostra que os ativistas estão a querer mudar a prática das pessoas sem mudar os princípios morais (ou seja, os princípios que guiam a prática) que elas adotam. Isto é, mostra que os ativistas querem mudar o que as pessoas fazem aos animais, sem mudar o que as pessoas pensam dos animais. Acho muito misterioso como uma estratégia assim poderia ter sucesso, já que nossas atitudes são resultado do que pensamos. Inconscientemente, tais ativistas estão reforçando a visão especista de que só existem deveres indiretos com relação aos animais não humanos.

Os ativistas que usam desse discurso geralmente argumentam que o fazem por estarem preocupados em convencer as pessoas a respeitarem os animais na prática, independentemente do que elas pensem sobre os animais. Afirmam algo como “para o animal que não vai ser morto, não importa por qual razão você não o mate”. Segundo entendo, há pelo menos dois erros ao se pensar que essa é uma maneira eficaz de melhorar a situação dos animais.

O primeiro erro se dá por não levar em conta que princípios morais orientam todas as decisões práticas, e não apenas uma. Então, imagine que alguém acredita que o seguinte princípio é correto “só devemos respeitar animais não humanos se não fazê-lo for prejudicial ao meio ambiente”. Obviamente, vai haver algumas situações onde seguir tal princípio implica em respeitar os animais não humanos. Mas, haverá toda uma série de outras situações (a maioria, suponho), onde não acontece essa coincidência. Compare com alguém que segue o princípio “níveis iguais de dano merecem consideração igual, independentemente da espécie da vítima”. Obviamente que seguir esse último princípio tem maiores condições de fazer com que alguém melhore a situação dos animais em cada decisão.

O segundo erro se dá por supor que nossos deveres perante os animais não humanos se resumiriam a não utilizá-los como recursos. No movimento de defesa animal, prevalece a idéia de que “desde que a pessoa torne-se vegana, não importa o motivo, está igualmente bom”. Mas, a rejeição do especismo implica em reconhecer outros deveres diante de animais não humanos em situações nas quais eles não estão sendo usados como recursos (e, muitas vezes, infelizmente, por incrível que pareça, essas situações são até mesmo mais prejudiciais a eles do que situações de uso, e poderíamos fazer muito para tornar essas situações menos piores). Comento essas outras situações logo adiante, no item 5. Então, mesmo que o uso de argumentos diretos ou indiretos tivesse a mesma probabilidade de as pessoas se tornarem veganas e permanecerem veganas (o que já é ser bastante generoso com os argumentos indiretos), ainda assim há uma dimensão que os argumentos anti-especistas atingem, que nenhum dos argumentos indiretos discute (veremos um pouco sobre isso nos itens 3, 4 e 5).

(3) O especismo continua sem ser atacado

Poderia ser alegado que adota-se a estratégia dos deveres indiretos porque “as pessoas não ligam para o sofrimento animal mesmo, e não há como mudar isso”. Essa crença parece realmente vir da negligência quanto ao debate acadêmico em torno da ética animal. Realmente, é verdade que a maioria das pessoas não se importa com o sofrimento e a morte dos animais não humanos. Mas, isso acontece porque essas pessoas mantém determinadas crenças que as levam a acreditar que há relevância moral entre humanos e não humanos. Isto é: elas pensam assim por algum motivo. Por algum motivo, elas pensam que os humanos merecem uma consideração que os não humanos não merecem. E, é possível avaliar os argumentos que dão sustentação a essas crenças, discutí-los e refutá-los. Me parece que, por trás do jargão “as pessoas não ligam para o sofrimento animal mesmo, e não há como mudar isso”, está a crença de que juízos éticos não são passíveis de avaliação racional. Mas, qualquer pessoa que conhece um pouco do que vêm sendo discutido nas últimas quatro décadas em ética prática tem uma impressão contrária. Há centenas de livros e artigos discutindo as mais variadas questões éticas. Além disso, esse debate não é meramente teórico: muito do ativismo de defesa animal surgiu, em parte, devido às discussões da filosofia. Isso parece mostrar que a avaliação sobre a plausibilidade dos princípios morais que as pessoas mantém consegue fazer com que elas rejeitem alguns princípios implausíveis e adotem outros, modificando sua prática de acordo com isso.

Assim, um dos maiores problemas com essa estratégia dos deveres indiretos é exatamente o que ela não faz. Ela não discute o especismo, não apresenta as razões para rejeitar o especismo, não apresenta as razões do porquê é injusto discriminar com base na espécie, não apresenta as razões para a existência do dever de dar igual consideração aos animais não humanos. E, não devemos esquecer, a situação na qual se encontram hoje os animais não humanos deve-se ao especismo. Não há outra maneira de mudar essa situação: tem-se que atacar a raiz do problema. Isso nunca será feito se continuarmos com essas estratégias de deveres indiretos. Tais estratégias acabam por reforçar o especismo: as pessoas já mantém que o sofrimento/morte dos animais não é suficiente para se abolir sua exploração; quando vêem ativistas veganos defendendo também que isso não é suficiente para se abolir tais práticas (e isso acontece quando discutem se o veganismo é ou não natural, se tem ou não impacto sobre o meio ambiente, se a experimentação animal é ou não eficaz, etc.), isso provavelmente as faz pensar: “obviamente que o sofrimento/morte dos animais não conta; até os ativistas acham que isso não é suficiente para abolir o seu uso”. Agora, imagine se o especismo tivesse começado a ser questionado amplamente já desde antigüidade, e não apenas a partir da década de 1970. Imagine se os reformistas do século XIX tivessem já naquela época defendido abolição do uso de animais, e não meramente a regulamentação. As coisas seriam muito diferentes hoje. Isso é óbvio: o quanto antes uma idéia começa a ser difundida, mais cedo ela atingirá um maior número de pessoas. Isso só mostra a urgência de se questionar o especismo e abandonar, de uma vez por todas, o uso de argumentos de deveres indiretos, que reforçam o especismo.

(4) A veneração pelo que é natural

Não apenas no movimento de defesa animal, mas, em várias questões éticas, muitas pessoas pensam que é relevante, com vistas a saber se uma prática é ou não justificada, saber se ela é natural ou não. Muitas vezes, também aplicam o mesmo raciocínio na hora de avaliar se uma situação é boa ou ruim: se uma situação que causa, por exemplo, sofrimento e morte, é fruto de ações humanas, a consideram negativa; mas, exatamente a mesma situação, se tem origem em processos naturais, muitas pessoas a consideram como neutra ou positiva. Mas, todas as propriedades que poderiam ser endereçadas para se explicar o valor negativo do sofrimento/morte quando causados pelos humanos estão todas presentes quando estes acontecimentos são causados naturalmente.

Penso que talvez esta crença, muito mais do que as outras, deva-se a uma negligência do que se tem discutido em filosofia nos últimos séculos. Pelo menos desde 1874, com a publicação de On Nature, de John Stuart Mill, é amplamente aceito na filosofia que o fato de uma prática ser ou não natural é totalmente irrelevante para saber se ela possui ou não boas razões para ser feita (isto é, o que é natural é moralmente irrelevante), assim como o fato de se a origem de uma situação é natural ou causada deliberadamente é totalmente irrelevante para se saber se ela é positiva ou negativa (isto é, o que é natural é valorativamente irrelevante). Isso é assim porque o termo “natural”, no sentido em que é usado quando se faz um apelo ao que é natural como modelo de moralidade ou de valor, é apenas uma maneira de se referir a algo que não é resultado de deliberação racional. Mas, se é assim, por que isso deveria ser um modelo de ação ou um modelo do que é bom ou ruim? Faria mais sentido se fosse o contrário: “vamos nos inspirar nos comportamentos que são resultado de uma deliberação cuidadosa e não arbitrária, e não, comportamentos naturais (isto é, não deliberados)”. O apelo ao que é natural seria inofensivo se na natureza só acontecem coisas boas. Mas, se dá o contrário. A natureza produz estados de desgraça em graus muito mais altos do que costumamos imaginar (falaremos disso no item 5).

Uma objeção conhecida ao veganismo envolve apontar que, se temos dentes caninos, então que somos naturalmente carnívoros e que, por isso, comer animais está justificado. Responder a essa objeção seria uma ótima oportunidade de mostrar o erro com o pensamento de que o que é natural é moralmente relevante. Mas, o que normalmente fazem os ativistas? Ficam a discutir se conseguimos ou não realmente cortar a carne com nossos dentes. Isto é: dão a entender que saber o que é natural é sim, relevante para saber se uma prática é justa ou injusta (talvez eles até acreditem realmente nisso). Dão a entender, ainda que sem perceber, que, sim, se conseguíssemos cortar carne com os dentes, estaria justificado a matar os animais. Com isso, perdem uma grande oportunidade de questionar a veneração pelo que é natural que, como veremos no item a seguir, é uma das maiores fontes de desvalor  no universo.

(5) Visão idílica da natureza e negligência do sofrimento/morte dos animais na natureza

Por fim, o que penso que seja o principal erro do movimento de defesa animal atualmente, e o que tem as piores conseqüências possíveis para os animais:

Talvez motivados pela veneração pelo que é natural, a maioria dos ativistas acredite que o respeito pelos animais implica em respeito pelos processos naturais. “A exploração sobre os animais”, pensam, “é injusta e deveria ser abolida, mas, quanto aos animais na natureza, deveríamos deixá-los a sós, isto é, não intervir em sua situação, seja para atrapalhar, seja para ajudar”.

Acredito que há dois motivos principais pelos quais os ativistas pensam dessa maneira. O primeiro, é a veneração pelo que é natural. Muitas pessoas até sabem que na natureza as desgraças são maximizadas, mas, devido à veneração pelo que é natural, concluem que esse estado de coisas é bom porque é natural. Como vimos no item 4, essa visão é implausível. O segundo motivo, é que muitos mantêm o que vêm sendo chamado de visão idílica da natureza: acreditam que os animais que vivem na natureza, se os humanos não os prejudicarem com suas práticas, têm chances de ter uma vida acima do ponto onde esta vale a pena ser vivida. Reconhecem que existem coisas que causam morte e sofrimento extremo na natureza, como a predação, morte por inanição e parasitismo. Mas, acreditam que esses são episódios pontuais: acreditam que, no geral, viver na natureza, livre de intervenção humana, é viver uma vida acima das condições mínimas nas quais ela vale a pena ser vivida.

Infelizmente, a visão idílica da natureza é completamente falsa. Na verdade, infelizmente, se dá o oposto: na natureza, devido aos próprios processos naturais, os episódios onde os animais desfrutam de algum instante que não seja sofrimento extremo é que são extremamente raros. Como mencionado anteriormente, na natureza há predação, parasitismo, inanição, desastres, incêndios, congelamento, em abundância. Tudo isso é causado naturalmente; não é resultado de práticas humanas. Mas, o que realmente faz com que a vida na natureza, devido aos processos naturais, seja, literalmente, um inferno, é a predominância da estratégia reprodutiva conhecida como seleção-r. Essa estratégia maximiza o número de animais que nasce apenas para morrer de inanição e nada mais: tais animais nascem e vivem muito pouco, e experimentam unicamente sofrimento extremo desde o momento do nascimento até o momento da morte, lenta e dolorosa.

Basicamente, existem duas estratégias reprodutivas principais ocorrendo na natureza. Uma delas é a seleção-K, onde a espécie perdura ao longo de gerações (isto é, não se extingue) por ter muito poucos filhotes por vez (imagine animais de porte grande, como humanos, ungulados, elefantes, que tem geralmente um filhote por vez), o que permite o cuidado parental, aumentando as chances de o filhote sobreviver até à maturidade sexual e dar origem à próxima geração. Quando pensamos em animais na natureza, tendemos a pensar em animais de porte grande (isto é, animais de seleção-K), e adultos. É por isso que, erroneamente, as pessoas mantém a visão idílica da natureza: estão a pensar em animais que são a imensa minoria. Além disso, mesmo animais que adotam a seleção-K não necessariamente estão a ter uma vida minimamente ok: basta lembrar que a zebra que está a ser comida viva por predadores é um desses poucos “sortudos”. Além disso, tais animais padecem de doenças, deformidades, parasitismo, etc. Se, no caso dos animais domesticados como cães e gatos, onde existem protetores dando assistência e realizando esterilizações, tais animais já são constantemente vítimas de inanição ou parasitismo, imagine uma situação onde haja tudo isso, mas que não haja ninguém a prestar ajuda. Essa situação é a vida na natureza, mesmo para os “sortudos”.

 Agora, o que realmente maximiza o sofrimento e a morte na natureza é a seleção-r. Diferentemente da seleção-K, as espécies que adotam a seleção-r mantém-se ao longo das gerações não por prestarem cuidados aos filhotes, mas, por maximizarem o número de filhotes. Alguns animais tem centenas, milhares e até mesmo milhões de filhotes a cada gestação. Pensemos, por exemplo, no potencial reprodutivo de ratos, tartarugas, répteis, peixes. Etc. Mas, se tais animais têm tantos filhotes assim, por que não há uma superpopulação de tais animais? A resposta é simples: a grande maioria morre antes de chegar à maturidade sexual (principalmente de inanição, haja vista que a comida que há na natureza é extremamente escassa, muito menor do que seria necessário para nutrir os filhotes gerados pelas espécies que “adotam” a seleção-r). Em períodos de tempo onde a população de uma espécie permanece constante em determinado ecossistema, isso é sinal de que apenas um filhote de cada adulto (isto é, dois por casal) está a sobreviver. O restante nasce apenas para morrer de inanição.

Para se ter uma idéia da dimensão da desgraça, considere o exemplo dado pelo filósofo Oscar Horta, no artigo Debunking the Iddyllic View of Nature (pp. 81-82), disponível em: http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2012/05/debunkingidyllicviewhorta.pdf. Peguemos por exemplo apenas uma espécie, o bacalhau (gadus morhua) apenas em um local (golfo do Maine). São animais que desenvolvem senciência. “Adotam” a estratégia reprodutiva da seleção-r: colocam entre alguns milhares até vários milhões de ovos. Vamos supor, para efeito de argumentação, 2 milhões de ovos para cada bacalhau adulto. Em 2007, havia 33.700 toneladas de bacalhau atlântico, somente no Golfo do Maine. Um bacalhau adulto pesa entre 25 e 35 Kg. Vamos supor que pesem em média 33,7Kg (o peso assumido é alto porque se está a assumir que são todos adultos). Então, em 2007 deveria haver em torno de 1 milhão de bacalhaus no golfo do Maine.

Suponha que a população de bacalhaus permaneça estável por determinado tempo. Em média, apenas dois ovos de cada fêmea chega a se tornar adulto (porque a população se torna estável, então, isso significa que apenas sobrevive um filhote por descendente, isto é, dois por casal). 2 milhões x 1 milhão = 2 trilhões (2^12). Ou seja, em torno de 2 trilhões de ovos postos não chegaram a gerar bacalhaus adultos. Vamos conceder, para efeito de argumentação, que cada ovo tem uma probabilidade de apenas 10% de se tornar um filhote de bacalhau. Isto é, vamos supor que 90% dos ovos sejam destruídos antes de formarem seres sencientes. Ainda assim, 200 bilhões de seres sencientes nasceriam (2^11) apenas para morrer de inanição (isso apenas em uma espécie, apenas em um local!). Vamos assumir também (para efeito de argumentação) que os bacalhaus que chegam a nascer também tem apenas 10% de probabilidade de serem sencientes (o que é realmente fazer uma estimativa bastante conservadora). Ainda assim, seriam 20 bilhões de seres sencientes (2^10) que nasceriam apenas para morrer de inanição (apenas de uma espécie, apenas em um local!).

Todos que reconhecem que os animais são também prejudicados se morrerem (devido à morte impedir experiências positivas), tem uma razão a mais, além do sofrimento, para considerar esse estado de coisas uma desgraça gigantesca, já que há uma maximização não apenas de sofrimento, mas também de mortes prematuras. Mas, supondo que fôssemos levar em conta apenas o sofrimento. Vamos assumir também (para feito de argumentação) que os bacalhaus do exemplo anterior sofram por apenas 10 segundos até morrer (o que, novamente, é uma estimativa bastante conservadora). Ainda assim, seriam 200 bilhões de segundos de sofrimento experimentado. Em um ano há 31.536.000 segundos. 200 bilhões de segundos de sofrimento significa 6.341 anos de sofrimento. Suponha que decidamos não intervir nessa situação. Em apenas 6 décadas, teremos o equivalente a 380.517 anos de sofrimento extremo. Essas suposições são todas bastante conservadoras. O resultado real é, infelizmente, provavelmente, muito pior. Ecossistemas naturais são como uma gigantesca “granja industrial” natural.

Para se ter uma idéia do tamanho do problema, considere o seguinte. O número de animais utilizados para consumo faz quase desaparecer o número de animais utilizados em outras áreas. Contudo, o número de animais a padecerem de sofrimento extremo e morte prematura na natureza, devido aos processos naturais, é tão gigantesco que faz o número de animais utilizados como recursos, somando-se todas as áreas (incluindo o consumo), desaparecer. Se fossem humanos passando por 0,0001% do que os animais não humanos passam na natureza, com certeza essa situação seria vista como a prioritária frente a todas as outras. A maioria das pessoas não se importa com tal situação (infelizmente, incluindo a maioria dos ativistas da causa animal) porque não humanos são as vítimas.

Mencionei que alguns ativistas não pensam que a situação dos animais na natureza seja um problema porque eles mantêm a visão idílica na natureza: pensam, erroneamente, que os animais que vivem na natureza estão minimamente bem. Contudo, é muito comum também acontecer de, quando é mostrado que a visão idílica da natureza é falsa, prontamente as pessoas reconhecerem que tal visão é falsa, mas, ainda assim, manterem que esse sofrimento e morte não importa moralmente. Muito disso pode ser explicado pela veneração pelo que é natural. Defendem que tais danos favorecem a um equilíbrio natural, e que são causados por processos naturais, e que isso geraria em nós o dever de não minimizarmos tais danos. Contudo, essa perspectiva de veneração pelo que é natural, além de ter todos os problemas que pode ter uma teoria que enxerga valor no que é natural, é combinada com especismo. Quando somos nós as vítimas dos processos naturais (câncer, deformidades, vírus, predação, inanição, parasitismo, etc.) não consideramos que é algo absurdo nos defendermos de tais coisas; e muito menos evocamos uma preocupação com o equilíbrio natural.

Por vezes, para evitar se preocupar com tais danos, os ativistas alegam que não somos responsáveis por quem não temos uma relação direta; ou que não somos responsáveis por nossas omissões; ou que os animais domesticados necessitam de nós em maior grau; ou que não temos responsabilidade por problemas que são difíceis, etc. Todas essas pressuposições são altamente questionáveis, e o que se tem produzido na filosofia nas últimas décadas deveria guiar a discussão nesse tópico também. Mas, note que, mesmo que estivessem corretos esses pressupostos dos quais os ativistas muitas vezes partem para manter que é errado ajudar os animais na natureza, vítimas de processos naturais, eles ainda assim não poderiam fundamentar que é errado intervir para ajudar os animais. No máximo, negariam que existe tal obrigação. Mesmo se fosse esse o caso (o que já é altamente questionável), ainda assim seria permissível ajudar os animais na natureza.

A falta de acompanhar a discussão acadêmica que se tem feito na ética animal ao longo das décadas é esta: os ativistas estão, muitas vezes, a reproduzir preconceitos que já estão a ser, desde muito tempo, questionados no meio acadêmico (incluindo o especismo).

LIGA: Gostariamos de terminar a entrevista pedindo que o sr. indicasse obras e artigos que são de fundamental importância para quem quer se tornar um educador vegano.

LUCIANO CUNHA:

1)      Artigos e vídeos introdutórios ao tema, com a argumentação básica em ética animal

Artigo: “Levando a sério a consideração moral dos animais: para além do especismo e do ecologismo” (Oscar  Horta). http://seer.uniritter.edu.br/index.php/educacaoecidadania/article/view/537/459

“Por que temos o dever de dar igual consideração aos animais não-humanos e as implicações práticas desse dever” (Luciano Carlos Cunha). http://seer.uniritter.edu.br/index.php/educacaoecidadania/article/view/535/319

Palestra em vídeo: "Por que (e como) defender aos animais" por Oscar Horta. https://www.youtube.com/watch?v=Tkqbh4hCyos

Site da Animal Ethics: vários artigos curtos introdutórios com a argumentação básica em ética animal (em inglês): www.animal-ethics.org

2) Texto clássico refutando a idéia de que o que é natural deve ter alguma relevância para se determinar o que é justo/injusto, bom/ruim (agora traduzido para o português):

“Sobre a Natureza” (J. S. Mill): https://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2014/06/sobre-a-natureza-mill.pdf

3) Sobre a oposição entre o movimento anti-especista e o movimento ambientalista, que freqüentemente são confundidos pelos ativistas da causa animal, o que conduz a conseqüências desastrosas para os animais:

Artigo “Sobre o bem de tudo e de todos: a conjunção impossível entre ambientalismo e libertação animal” (Cátia Faria). http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7392/1/29-43.pdf

Artigo “Muerte entre las flores: el conflicto entre el ecologismo y la defensa de los animales no humanos” (Cátia Faria). http://www.academia.edu/4657939/Muerte_entre_las_flores_el_conflicto_entre_el_ecologismo_y_la_defensa_de_los_animales_no_humanos

4) Sofrimento dos animais na natureza:

Palestra em vídeo: “Reduzindo o sofrimento dos animais na natureza”. (Adriano Mannino e Ruairí Donnelly) (legendada em português): http://dotsub.com/view/0c569f74-b3d7-4b8b-b466-b46b42bc4803

- Artigo “La cuestión del mal natural: bases evolutivas de la prevalencia del desvalor (Oscar Horta). http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7395/1/59-77.pdf

Artigo: “O princípio da beneficência e os animais não-humanos: uma discussão sobre o problema da predação e outros danos naturais” (Luciano Carlos Cunha).

 http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7399/1/101-133.pdf

5) Discussão sobre as estratégias do movimento de defesa animal:

Palestra em vídeo: “About strategies” (Oscar Horta).

 https://www.youtube.com/watch?v=v_vsHlKZPFQ

Palestra em vídeo: “The Abolition of Meat” (David Olivier).

https://www.youtube.com/watch?v=3kHsTrV3-PY

 

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