Laerte F. Levai

Laerte Fernando Levai: formado em Jornalismo e em Direito, é promotor de justiça em São Jose dos Campos (SP), e professor da Pós-Graduação Lato Sensu em Direito Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo o promotor que também é poeta, “embora desde cedo enamorado das Letras, casou-se com o Direito. Na carreira jurídica tem lutado pelo reconhecimento dos direitos animais. Em meio a esse percurso flertou com a música e a literatura, por acreditar que a arte não só redime como alivia. Nos últimos tempos vem se esforçando em voltar às origens. Razões que o coração desconhece…”

 

Segue abaixo a entrevista que o promotor de justiça e poeta concedeu a LIGA ANIMALISTA.

 


 

LIGA: O Sr. poderia nos definir o que é educação vegana e o que pensa a respeito dela?

 

LAERTE LEVAI: Na realidade não sei definir coisa alguma, prefiro sempre seguir aquilo que a intuição me diz. Neste sentido costumo associar a ideia de educação vegana à causa animal e também ao ideal de justiça. É que, quando se pensa na libertação dos animais de um modo amplo, não há como deixar de refletir sobre as múltiplas e às vezes inimagináveis formas de exploração. Não compactuar com o sistema que faz dos animais produtos de consumo ou de entretenimento talvez seja um caminho para o verdadeiro abolicionismo. A educação vegana, cujos fundamentos permitem despertar consciências adormecidas, é um meio de mostrar às pessoas que existe um jeito de não compactuar com a violência institucionalizada que se alastra por uma sociedade injusta.        

 

LIGA: Em uma entrevista a ANDA em junho de 2009, o sr disse “que a mudança de comportamento decorre mais da Educação do que propriamente do Direito. Parece utópico, mas a estratégia pedagógica é o melhor caminho para as transformações que todos nós desejamos”. O sr continua acreditando nessa ideia ou mudou o seu olhar?

LAERTE LEVAI: Para responder a essa pergunta basta dizer que numa sociedade ideal (talvez utópica) o Direito seria desnecessário. Não haveria conflito algum a ser decidido, porque todos se entenderiam. Quando a paz triunfa e os homens respeitam o próximo, seja ele quem for, a coerção inerente ao sistema jurídica soaria inócua. Mas infelizmente não é este o mundo em que vivemos. Basta examinar as estatísticas criminais sempre crescentes para concluir que a situação é grave. Em relação aos animais a lógica é a mesma: se com o Direito já é ruim, pior seria sem ele.

LIGA: Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não-formal, realizada pelos ativistas em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas, tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro “educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio” ele afirma que, por enquanto, a formal só é realizada no Brasil. O Sr. concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

LAERTE LEVAI: Concordo em gênero, número e grau com a afirmativa do professor Leon Denis. E fico a pensar se a educação vegana fosse implantada nas escolas, dentro da moldura formal da Lei de Educação Ambiental, somente coisas boas poderiam advir dessa opção pedagógica.  

 

LIGA: Ao falar da histórica relação de exploração que os humanos têm com os animais no seu livro Direitos dos Animais, o sr diz que “a questão não é apenas jurídica, mas sobretudo filosófica. Faz-se urgente, pois, uma revisão do nosso tradicional modelo de ensino, buscando uma formula que nos permita respeitar a vida, independente de onde ela se manifeste. Nesse contexto, a piedade precisa fazer parte do repertorio dos nossos sentimentos.” Sabendo que os sentimentos, dentre eles a piedade (principio moral segundo Schopenhauer), não faz parte do currículo, nosso sistema de ensino deveria dar espaço para uma educação sentimental, mais empática?

LAERTE LEVAI: Penso que um professor pode influenciar decisivamente os passos futuros do aluno. Digo isso porque meu professor de português no colegial, José Sérgio Matta, despertou em mim a paixão pela literatura. Até hoje me lembro das aulas memoráveis que tive sobre poetas e romancistas brasileiros, os quais faziam aflorar o sentimento em todas as suas obras. O princípio da piedade, quando pensamos na questão animal, não fica muito longe disso. Não importa que o currículo escolar pouco se importe com a educação sentimental, porque um professor sensível e verdadeiramente interessado é capaz de fazer pequenas revoluções.     

 

LIGA: Na mesma obra o sr diz: “A pedagogia da crueldade está inserida – consciente ou inconsciente – na cartilha social dos povos.” Poderia definir o que seria essa pedagogia da crueldade?

LAERTE LEVAI: O mundo vasto em que vivemos é também um lugar de grandes injustiças. Uns com tudo, outros sem nada. Uns sorrindo, outros gemendo. Uns usufruindo de seus espaços de plenitude, outros confinados em masmorras físicas ou psicológicas. A tal pedagogia da crueldade, por mais paradoxal que possa soar essa frase, tem a ver com aquela educação cega que finge ensinar mas que, no fundo, apenas legitima o sistema social perverso que nos engole desde pequenos. Ao seguirmos tradições e hábitos cruéis, mesmo sem ter consciência disso, acabamos por acreditar que eles são caminhos naturais e inquestionáveis.           

 

LIGA: É essa pedagogia da crueldade que legitima o que o sr costuma chamar de crueldade consentida, tortura institucionalizada? É ela que transforma o cultural em natural, no socialmente aceito?

LAERTE LEVAI: Exatamente isso. O cultural se transforma em natural. Basta lembrar o exemplo distorcido de crianças cujos pais as levam a jardins zoológicos. Ali, os olhos infantis enxergam o que os adultos querem que eles enxerguem. E tudo se torna divino e maravilhoso: tigres em jaulas, harpias em gaiolas, hipopótamos em tanques de água. E ai de quem ousasse dizer que isso é cruel. Se a sociedade aceita a ideia de animais confinados, então para maioria das pessoas não há mal algum.  Isso é a crueldade consentida.    

 

LIGA: No capítulo Propostas Pedagógicas, o sr é taxativo ao afirmar que “de todas as medidas de salvaguarda animal, nenhuma mais promissora do que a educação. Os pais e os professores podem influenciar decisivamente na formação do caráter de uma criança, ensinando-lhe os valores supremos da vida, em que se inclui o respeito pelas plantas e pelos animais. Não há outro jeito de mudar nossa caótica realidade senão por meio de um processo de aprendizado de valores e princípios verdadeiramente compassivos.” (125) Seria muita pretensão dizer que essa reflexão do Sr. só seria viável a partir de pais e professores veganos, seguidores do principio da não-violência?  

LAERTE LEVAI: Meu saudoso professor José Sergio Matta não era vegetariano e muito menos vegano, mas a sua forma de ensinar fez a diferença. Quero crer, assim, que a sensibilidade para tratar de valores culturais ou humanitários, da mesma forma que em relação ao respeito que se deve ter para com as outras formas de vida e relacionadas ao princípio da não-violência, não se restringe a pais ou professores veganos. Mas também não há como negar que, se eles o forem, tanto melhor para os jovens que recebem a orientação compassiva.   

 

LIGA: No final do seu livro, ao tratar dos animais como sujeitos de direitos, lemos: “A excelência espiritual, que se adquire com uma pedagogia voltada aos sentimentos, talvez seja a ultima esperança para neutralizar as desilusões geradas por um mudo materialista e insano, em que os animais nascem, vivem e morrem em função da vontade humana.” (138) Parece-nos que o sr tentar abolir a  tal “pedagogia da crueldade” com uma pedagogia dos sentimentos, é isso mesmo?

LAERTE LEVAI: Sim, o contraponto da pedagogia da crueldade é a educação sentimental. Não apenas pelo aceno literário de Flaubert, mas com o exemplo real de escritores que se debruçaram sobre a sensibilidade animal que merece profunda reflexão, como Curzio Malaparte de “A Pele”, como Miguel Torga de “Bichos”, como Cecília Meireles de “Um cão apenas”, como J.M. Coetzee de “A vida dos animais” ou como Regina Rheda de “Humana Festa”.    

 

LIGA: Após citar uma belíssima passagem do pensador neoplatônico Plutarco o sr diz que “único jeito de inventar um mundo novo é por uma educação que privilegie valores e princípios morais elevados. Algo que nos faça compreender, desde cedo, o caráter sagrado da existência. Mostrar às pessoas que a natureza e os animais também merecem ser protegidos pelo que eles são, como valor em si, não em vista do beneficio que nos podem propiciar.” Que princípios e valores morais elevados deveriam ser ensinados as crianças? A educação vegana deveria se fundar na ética das virtudes? 

LAERTE LEVAI: Dentre os princípios com passivos básicos que poderiam ser ensinados às crianças incluem-se: não ofender, não provocar, não xingar, não agredir, não maltratar ninguém. Cuidar das plantas, dos jardins, das árvores. Não poluir. Não aprisionar. Não ser sádico. Ajudar a todos os que precisam.  Respeitar também os pequenos seres da natureza e a mais frágil e delicada flor.     

 

LIGA: Em todos os trechos citados acima de sua obra, o sr defende uma educação sentimental, compassiva, o sr não acredita que o uso da racionalidade, via raciocínios lógicos e éticos bem fundamentados seria a melhor via para ensinar que os animais não-humanos devem ser respeitados em sua singularidade?  

LAERTE LEVAI: Não nego que a educação racional, capaz de demonstrar filosoficamente que os animais merecem ser respeitados pelo que são, seja importante. Mas minha velha intuição diz que a educação dos sentimentos, sem cair no exagero místico ou na argumentação piegas, ainda é o que, desde logo, pode moldar a índole de uma criança, antes mesmo de ela ter condições de assimilar raciocínios lógicos. Meninos e meninas assim iniciados no caminho do bem terão, mais tarde, muito mais condições de compreender o sentido da vida em toda sua grandeza e singularidade.           

 

LIGA: Gostaríamos de terminar essa entrevista pedindo que o Sr. indicasse alguns livros e/ou artigos que deveriam ser leitura de cabeceira para as pessoas que querem se tornar educadores veganos.

LAERTE LEVAI: Cada pessoa tem o seu momento. Não me sinto capaz de dizer o que seria bom em termos de leituras ou de inspiração para cada uma delas. Um educador assemelha-se, de certa forma, ao caminhante solitário em passeio num bosque que ninguém conhece. Olha tudo e tudo o encanta, acolhendo na alma a essência vital daquela mágica realidade circundante. Para depois transmitir um pouco da beleza do mundo àqueles que têm apenas a ideia de um bosque. Este é o grande desafio que justifica toda uma vida de dedicação e ensino.