Sônia T. Felipe

Sônia T. Felipe é doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz (Alemanha), pós-doutorado em Bioética-Ética Animal (Lisboa), co-fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC), ex-voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis. Membro do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, e investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Assina a coluna “Questão de Ética” da Agencia de Noticias de Direitos Animais (ANDA) e é autora das obras: Por uma questão de princípios; Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas; Galactolatria: mau deleite – implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino.

 

Segue abaixo a entrevista que a filósofa concedeu a LIGA ANIMALISTA.

 

LIGA - Como define Educação vegana?

Sônia T. Felipe – Defino-a como um projeto pedagógico que adota a não-violência contra todas as formas de vida como eixo da formação ética das crianças, jovens e adultos, sem discriminação de qualquer tipo de animal, no modo de considerar o direito de ser respeitado em seus interesses fundamentais, priorizando o direito à vida e os direitos diretamente associados a esse: o direito de não ser procriado forçadamente, o direito de não ser confinado, o direito de não ser mantido vivo através do manejo humano, o direito à escolha do próprio alimento, o direito de expressar sua individualidade e de buscar o bem próprio da natureza de sua espécie, o direito à consciência e até mesmo à consciência de si. Enfim, o direito de não ser colocado sob o domínio absoluto da vontade e dos interesses humanos. Uma educação baseada nessa concepção ética é abolicionista e vegana.

LIGA - Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não-formal, realizada pelos ativistas em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas, tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio, ele afirma que, por enquanto, a formal só é realizada no Brasil. Concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

Sônia T. Felipe – O professor Leon Denis resume perfeitamente o estado da questão, ao reconhecer que estamos fazendo, no Brasil, uma intervenção ética no currículo escolar, permitindo que temas, como a defesa dos direitos animais promulgada pela Constituição de 1988, sejam finalmente levados a sério desde o ensino médio. Essa experiência é pioneira no Brasil. Não conheço similar em outro país.

LIGA - Uma crítica muito comum aos educadores veganos é direcionada ao uso que eles fazem em sala de aula de vídeos que exibem imagens de animais não-humanos sendo torturados e assassinados (A Carne é Fraca, Não Matarás e Terráqueos). No seu livro Por Uma Questão de Princípios (p. 164-165) a senhora argumenta que o uso de imagens de animais brutalmente assassinados não leva necessariamente à abolição do consumo por parte de quem vê tais cenas. Quatro anos depois, no Ética e Experimentação Animal, diz: “Se os horrores forem mantidos em sigilo, não haverá indignação moral capaz de exigir sua abolição” (p.109). Hoje, como avalia o uso de imagens por parte dos educadores veganos no processo de conscientização dos seus alunos e alunas?

Sônia T. Felipe – Precisamos fazer a distinção entre mostrar imagens de animais dilacerados, e usar as imagens de animais dilacerados como ponto de partida para  fazer o desdobramento das pregas morais nas quais estamos todos enrolados, que nos impedem de perceber que aquela cena tem nossa assinatura, pois ela só existe porque consumimos produtos tirados dos animais assassinados com esse propósito. Nesse sentido, o que está escrito no primeiro livro é uma crítica ao uso de violência virtual com o intuito de chocar as pessoas, crente de que esse choque levará a uma mudança ética. Não leva. Estado de choque não é bom caminho para decisões morais profundas. Você pode sentir imenso desconforto vendo animais destruídos. Isso não quer dizer que em sua mente algo se transformará eticamente. A ética não se sustenta em sensações. O animal destruído pode ter sofrido um atropelamento; um impacto causado por eventos naturais; pode ter sido vítima da violência de um indivíduo doente; ou pode ter sido dilacerado na esteira rolante da produção para consumo humano. Portanto, o uso da imagem dos danos aos animais precisa ter um efeito pedagógico e ser uma chave de libertação. É preciso que, ao ver tal imagem, o sujeito se veja contribuindo para aquela cena final. A imagem da cena final não evoca mudanças nas mentes humanas, porque nossa mente é ególatra, não se reconhece como autora ou coautora de coisas feias, ruins ou abomináveis. Entretanto, manter invisível o que se faz aos animais também não leva a mudança ética alguma. Por isso, ao usar imagens, é preciso desdobrar as pregas que escondem o sujeito que as olha, deixando que ele veja que sua assinatura de presença está naquela cena, através do seu gosto em consumir o que foi tirado do animal para ser vendido a ele. Sem esse trabalho de desdobrar as pregas morais, a imagem nua e crua é inoperante e violenta. É claro, a maior parte dos consumidores de derivados dos animais trucidados vai correr da sala e evitar olhar o filme, porque não quer ver-se nesse espelho. Mais uma razão para não mostrar as imagens com o propósito de chocar. Acho que ficou clara a distinção entre as afirmações feitas nos dois livros citados em sua pergunta.

LIGA - Na sua obra mais recente, Galactolatria: mau deleite, a sra muito argumenta sobre o impacto maléfico do leite na vida escolar das crianças e adolescentes, seja o consumindo em casa, seja na merenda servida na própria escola. A escola não deveria ser o primeiro lugar onde as crianças e adolescentes deveriam ter contato com esse conhecimento?

Sônia T. Felipe – A escola deveria ser o primeiro lugar onde as crianças estudassem o que lhes faz mal e pudessem levar e aprofundar esse conhecimento de volta para a família. Infelizmente, a escola segue o padrão alimentar imposto ao resto da sociedade, ditado pelos interesses dos megaprodutores de alimentos. Não se pode confiar que o que é servido na merenda escolar ou mesmo nas lanchonetes das escolas seja ideal para a saúde física e mental das crianças. Para mais de 70% das crianças brasileiras, se seguirmos a estatística da herança genética intolerante à lactose, por exemplo, servir alimentos preparados com leites e seus derivados é uma violência nutricional. O padrão alimentar uniformizado é ditado pelo agronegócio. Entretanto, a Constituição Brasileira assegura a todos os indivíduos nascidos em nosso país o direito à igualdade no atendimento de necessidades especiais. O problema é que quando se fala de necessidades especiais todo mundo se lembra apenas de cadeirantes, não-visuais e não-auditivos, ficando os limites cognitivos em segundo plano e as limitações digestórias completamente ignoradas. O leite bovino é um grande vilão na alimentação humana. Ele possui, é fato, gordura, açúcar, proteínas, cálcio e algumas vitaminas (perdidas em boa parte com a pasteurização). Mas esses componentes podem ser garantidos pelos  alimentos vegetais. A digestão do leite bovino não pode ser feita convenientemente pelo sistema digestório humano. Chego a duvidar se o leite da própria mãe seria bem digerido pelo adulto depois de formada sua arcada dentária e cessada a produção da lactase. Dentes são a marca do fim do período galactófago em todos os mamíferos. Mas, outra vez, servimos pacatamente aos interesses empresariais e políticos nos submetendo a uma dieta ditada por quem não está interessado em nossa saúde, e sim em ganhar dinheiro do modo mais eficiente possível. A merenda escolar não foge à regra. É preciso respeitar na escola e na família as necessidades digestórias especiais. A deficiência da lactase e a reação alérgica às proteínas do leite são necessidades digestórias especiais. Por fim, a escola deveria desfazer as pregas morais já firmadas nas crianças, mostrando a elas o quanto a extração do leite (e de outros alimentos) representa de dor e sofrimento para as vacas e vitelos, de gasto de alimentos (dados às vacas em excesso para que rendam mais leite), água potável, devastação ambiental (pelos excrementos deixados sobre o planeta) e males para a saúde humana. Essa educação vegana tem sido desprezada nos currículos escolares, fazendo com que a escola apenas reproduza o mesmo padrão já adotado pelas famílias, que, por sua vez, não tiveram uma escola na qual pudessem ter aprendido a pensar sobre o que põem da boca para dentro.

LIGA - Acreditamos que o Ministério da Saúde é subserviente à galactocracia dominante no Brasil. A sra acredita que um dia, a partir do exposto em seu livro, o Ministério da Educação em conjunto com o Ministério da Saúde vai abolir o leite e seus derivados da merenda escolar?

Sônia T. Felipe – O Ministério da Educação e o Ministério da Saúde só farão alterações em suas políticas de merenda escolar quando os pais e estudantes os pressionarem. Mas, até lá, teremos ainda que esclarecer a população sobre os malefícios do leite bovino para a saúde humana, e enfrentar a reação de todos os que se formaram nas universidades preparados para orientar os pacientes em sua dieta fundada nos laticínios. Ao tirar o leite bovino da dieta humana, precisamos de profissionais habilitados a indicar aos seus pacientes onde encontrar o cálcio, e como produzir a vitamina D, sem a qual o cálcio não pode ser fixado nos ossos. Os cursos de nutrição precisam renascer, voltando seus profissionais para a questão das fontes vegetais dos nutrientes hoje tidos como existindo exclusivamente no leite bovino, o que não procede.

LIGA - Ao que a senhora atribui tanta polêmica ou não entendimento (comentários extremamente raivosos) ao que defende nos artigos “Educar o Estado” e “Matar não educa” publicados no sitio da ANDA?

Sônia T. Felipe – Atribuo os ataques feitos à minha defesa da educação como meio para formar cidadãos não consumidores de produtos animais, em vez de tiros para acabar com a vida de quem tira a vida dos animais para obter ganhos com isso, à impaciência de alguns, que ao descobrirem o sofrimento imposto aos animais desde o século XIII (no caso, aos elefantes mortos para extração do marfim), pela colonização europeia na África e Ásia, querem ver isso tudo encerrado na manhã seguinte. Então, como reconhecem que não têm recurso nem poder para transformar uma prática milenar da noite para o dia, lembram-se das armas, pois elas são mostradas como o recurso para paralisar definitivamente o sujeito em movimento. Também atribuo tais reações raivosas contra meu texto à ira por eu não compartilhar certas propostas de luta em defesa dos animais, justamente as que apontam as armas como o melhor meio para a abolição animalista. Não defendendo armas, viro alvo delas.

LIGA - A sra dedicou toda sua vida acadêmica à leitura e estudo filosóficos e ao ensino de filosofia. Como vê o atraso da academia brasileira quanto ao debate ético animalista realizado nos EUA e na Europa, em especial nas quatro ultimas décadas? Qual é o impacto desse descaso com a ética animal na formação de futuros professores de filosofia que irão lecionar no ensino médio?

Sônia T. Felipe – Podemos comparar a questão do ensino acadêmico e seu atraso em reconhecer em todos os cursos a necessidade de disciplinas voltadas para redefinir os conceitos antigos sobre o lugar dos animais no âmbito da moralidade humana, com a questão da matança dos elefantes para extração do marfim. São práticas educativas milenares. Contra tais práticas é preciso oferecer novos mapas conceituais. Com novos mapas conceituais os estudantes sairão das universidades com noção de que os animais não são seres esdrúxulos, que foram colocados neste planeta para atender a todos os propósitos humanos, e sim, seres iguais a nós em sua formatação biológica, fisiológica e emocional. Por sua condição animal, os humanos precisam abrir melhor seus olhos, deixando de olhar apenas o desenho externo do corpo dos animais, e prestar atenção nas necessidades postas pela natureza a todos os animais, sem discriminação de espécies. Feito isso nas universidades, todos os cursos começarão a profissionalizar os cidadãos para serem responsáveis pela vida, em vez de treiná-los para serem matadores habilitados apenas pela sua formatação de consumidores. Nas universidades da Europa e dos EUA a questão é tratada desse modo crítico apenas onde há filósofos animalistas. Então, precisamos formar filósofas e filósofos animalistas, para que eles possam ensinar os jovens universitários a buscar as soluções éticas, políticas, técnicas, jurídicas e científicas para a abolição de todas as formas de exploração e matança dos animais. E, principalmente, é preciso educar para a urgência de fazer na própria biografia as mudanças que se quer ver no mundo, conforme o diz Gandhi.

LIGA - Gostaríamos de terminar essa entrevista pedindo que a Sra. indicasse alguns livros e/ou artigos que deveriam ser leitura de cabeceira para as pessoas que querem se tornar educadores veganos.

Sônia T. Felipe – Indico os artigos de colunistas da ANDA, os artigos da Pensata Animal postados no sítio Olhar Animal, no sítio do Instituto Nina Rosa, além de outros dedicados ao tema. Indico os livros de Tom Regan, Gary L. Francione, Richard D. Ryder, Leon Denis, Laerte Levai, Silvana Andrade, Tamara Bauab Levai, João Epifânio, citando apenas alguns autores relevantes para a questão abolicionista. Para elucidar as questões da alimentação vegana, é indispensável a leitura dos livros de John Robbins, Collin T. Campbell e do Galactolatria: mau deleite, pois esse livro reúne dados e informações de ponta sobre um dos alimentos da dieta ocidental, o leite, mais carregados de malefícios, para as vacas e vitelos, o planeta e a saúde humana. Esses exemplos não esgotam a literatura a ser estudada pelos educadores veganos. O trabalho mal começou.