Andresa Jacobs

Andresa Jacobs é bióloga e educadora da rede pública estadual na área de Ciências e Biologia, na cidade de Ponta Grossa, Paraná. É licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Educação, Ciência e Problemática Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina. É vegana e membro ativista dos Abolicionistas Veganos (AVEG), e colabora com o projeto de criação dos Educadores Brasileiros Abolicionistas Veganos (EBRAV). Assina a coluna “Valor à Vida” na Agência de Noticias de Direitos Animais (ANDA). Atua no Colégio Estadual Prof. Eugênio Malanski, onde coordena o Projeto Valor à Vida, o qual desenvolve atividades voltadas para um abordagem biocêntrica dos conteúdos escolares, articulando o ativismo em Defesa dos Direitos Animais com a educação científica

 

Segue abaixo a entrevista que a educadora concedeu a LIGA ANIMALISTA.

 

LIGA: Hoje a Sra. se apresenta como educadora vegana abolicionista, como foi o processo para chegar a esse posicionamento político? 

JACOBS: Antes desse despertar, já era bióloga e educadora, ligada a estudos e ações sobre educação e problemática ambiental. Por um tempo atuei num grupo de proteção animal, e neste período despertei para o veganismo. Saí deste grupo de forma amigável, mas eu e mais uns companheiros ativistas veganos criamos outro coletivo estritamente abolicionista vegano (Abolicionistas Veganos - AVEG). Já vegana, estava afastada de sala de aula, atuando na coordenação de projetos em meio ambiente e saúde, na Usina de Conhecimento de Ponta Grossa. Meu esforço foi grande para manter a proposta abolicionista vegana em minha atuação. Atuei nessa coordenação com cursos, oficinas e eventos voltados para educadores, educando e comunidade, sobre a questão dos direitos animais, vegetarianismo e veganismo. Retornei para a minha escola de origem em 2011. Meu retorno ao chão da escola foi decisivo para assumir minha identidade de educadora abolicionista vegana. Antes disso participei dos Encontros Nacionais de Direitos Animais (ENDA), conheci o educador Leon Denis, o qual convidamos a participar de um evento em Ponta Grossa, junto com a filósofa Sônia Felipe, e as coisas foram cada vez mais se consolidando.

 

 

 

LIGA: A Sra. poderia definir o que é educação vegana?  

 JACOBS: Cito um trecho do meu artigo que será publicado no livro organizado pelo Leon: "A esta concepção, que articula conhecimentos escolares com a defesa dos direitos animais, considerando que os animais, seja qual for a espécie ou indivíduo, possuem direitos e, portanto não devem ser explorados pelos humanos, denominamos educação vegana ou educação abolicionista vegana.

A educação vegana é também abolicionista, pois demarca um posicionamento político pela libertação dos animais não-humanos das diversas formas de exploração humana, partindo da negação da subjugação dos animais como propriedade. É vegana porque defende a possibilidade de um modo de vida que elimine, no consumo cotidiano, todas as formas de exploração animal, seja na alimentação, no vestuário, composição de produtos, nos testes dos mesmos, no entretenimento, no trabalho, no comércio e nas religiões." 

 

LIGA: Como a Sra. vê o descaso dos biólogos diante da coisificação dos animais não-humanos e dos ecossistemas naturais, ambos vistos como recursos para os humanos?

JACOBS: Triste, mesmo quando ainda não era vegana, em minha graduação, quase desisti do curso em função da experimentação animal, coletas, matanças e tal. Resisti graças à educação ambiental. Estou em constante embate entre meus colegas, já me posicionei na revista do CRBio-7 contra a matança de espécies exóticas taxadas de "invasoras". Procuro aplicar os conhecimentos científicos para a causa abolicionista vegana, principalmente como educadora. Precisamos de biólogos biocêntricos, atualmente estes são ridicularizados pela dita "academia".

 

LIGA: A Sra. poderia falar sobre o projeto “Valor à Vida” que desenvolve na escola Estadual Profº Eugênio Malanski?

JACOBS: Iniciei o projeto em 2005, onde o foco foi a questão do arroio ao lado da escola e a questão socioambiental da comunidade, sem pautar de forma específica o biocentrismo, pois já era protovegetariana, iniciando minha caminhada rumo ao veganismo. Quando retornei ao colégio, em 2011, reelaborei as propostas pedagógicas da disciplina de Ciências dos 8° e 9° anos, e iniciei o trabalho abordando os conteúdos com base na concepção de ética biocêntrica. A cada conteúdo trabalhado, como o de nutrição e sistema digestório, nos 8° anos, ou formas de energia, nos 9° anos, os conhecimentos científicos são trazidos, discutidos, o livro didático é desconstruído, e para isso é preciso estar sempre pesquisando o que há de novo em conhecimentos científicos, que justificam a abordagem biocêntrica dos conteúdos. As oficinas de alimentação vegetariana, na temática da nutrição e digestão, são bem aceitas e divertidas. Na questão da energia, toda a discussão ambiental vai além dos temas tão batidos como reciclar lixo e fechar torneiras. A abordagem é radical. Temos vários registros de nossas atividades em parceria com os Abolicionistas Veganos (AVEG), grupo no qual milito, no Portal Comunitário de Ponta Grossa (portalcomunitario.jor.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=99&Itemid=475) e na Agência de Notícias de Direitos Animais (anda.jor.br). Sempre que consigo, levo os ativistas para conversas com os estudantes, o que tem trazido ricas discussões. Mas o mais importante, nisso tudo, é o referencial como educadora abolicionista vegana, não somente para os estudantes, mas para toda a comunidade escolar. As pessoas já sabem o que é o veganismo, vários estudantes manifestam seus anseios em parar de comer animais, já não utilizam mais produtos testados em animais, enfim, o importante é o trabalho permanente, o exemplo. 

 

LIGA: Esse projeto “Valor à Vida” é fundado no recorte bioético da ética prática contemporânea chamado ‘biocentrismo’. Qual a importância dessa corrente filosófica para educação vegana?

JACOBS: Trago novamente citações do meu último artigo, que será publicado no livro organizado por Leon Denis. Para o ensino de ciências e biologia, é fundamental.

"A ética biocêntrica (...) desconstrói as hierarquias, ao conceber os animais humanos num plano horizontal em relação a todos os indivíduos, espécies e seus ecossistemas. Os seres não são vistos como meras fontes de recursos para uso e consumo humanos e sim como merecedores de preocupação moral, enfatizando sua condição de indivíduos, independente de sua espécie, sua capacidade de sentir e/ou valor atribuído pelos seres humanos. Por outro lado, a ética biocêntrica nega a suposta harmonia entre as espécies, defendida pela ética ecocêntrica. Por mais que exista um equilíbrio dinâmico entre espécies e ambiente, esse é o resultado do conflito de interesses de indivíduos em busca de sua sobrevivência, por isso não cabe aos eventos da natureza nos servir como modelos de ética, nem nos guiar moralmente." 

 

LIGA: Em alguns de seus textos a Sra. utiliza termos como “libertário”, “Hegemônico” e “práxis”. O primeiro nos remete aos anarquistas, o segundo ao pensador marxista italiano Antonio Gramsci. A Sra. se posiciona como uma educadora de esquerda? Como a pedagogia libertária, historicamente anti-hegemônica, pode contribuir para a educação vegana? 

JACOBS: Sim, me posiciono como educadora de esquerda. Até aí tenho vários companheiros educadores na escola que compartilham ideais. A coisa pega quando transcendemos as barreiras da nossa espécie, pois os colegas não concebem os demais indivíduos não humanos como sujeitos de direito. A pedagogia libertária fala muito do que queremos ouvir e concretizar, mas estaciona no antropocentrismo. O que queremos é um posicionamento político abolicionista vegano na educação de esquerda. Creio que a pedagogia do oprimido, como enfatiza Paulo Freire, parte da identificação do opressor em cada um de nós, oprimidos por este sistema que naturaliza a violência. E o opressor que habita cada oprimido violenta não somente outros humanos, mas muito mais os não humanos. É esta barreira especista que precisamos superar dentro da pedagogia libertária, para que ela faça jus ao seu nome, de forma biocêntrica.

 

LIGA: Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não-formal, realizada pelos ativista em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas, tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro “educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio” ele afirma que, por enquanto, a formal só é realizada no Brasil. A Sra. concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

JACOBS: Concordo pois desconheço registros e publicações de outras iniciativas fora do Brasil. Tenho feito essa reflexão e compartilho da ideia, pois iniciei como educadora não-formal, como ativista, quando não estava em sala de aula, e graças a essa experiência, incorporei a proposta abolicionista vegana na educação formal, quando retornei para sala de aula.  

 

LIGA: Uma crítica muito comum aos educadores veganos é direcionada ao uso que eles fazem em sala de aula de vídeos que exibem imagens de animais não-humanos sendo torturados e assassinados como: A Carne é Fraca, Não Matarás e Terráqueos. Como a Sra. avalia essa crítica?   

JACOBS: Eu uso muitos destes documentários, de acordo com a recomendação de faixa etária. Como atuo mais no ensino fundamental, com crianças de 12 a 14 anos (esporadicamente atuo no ensino médio, com aulas extraordinárias) procuro planejar com cuidado o uso destes recursos, mas não acho que eles devam ser abolidos. Imagens, como fotos e pequenos clipes, os próprios estudantes acabam trazendo para assistirmos juntos, é inevitável. Considero importante que os estudantes vejam a realidade, pois a partir daí começam a fazer a conexão. A sociedade, a mídia, a televisão, mente para eles, e estes recursos descortinam essas atrocidades.

 

LIGA: No artigo “Abolicionismo animalista dentro e fora da escola”, a Sra. fala que o ativismo animalista na escola é solitário. A Sra. acredita que essa solidão que educadores veganos têm passado nesse inicio de trabalho sistemático de introdução dos direitos animais na escola está com os dias contados? A Sra. percebe um aumento de educadores veganos abolicionistas no Brasil?

JACOBS: Percebo que a temática está em pauta, a partir dos comentários que surgem nos artigos da ANDA, alguns educadores aparecem, solidários. A ANDA foi um grande avanço para nós, nesse sentido. Mas ainda temos muito pela frente, pois quantos educadores da grande massa são veganos? Precisamos ter ideia disso. Até lá, geralmente tem, quando tem, um por escola.

 

LIGA: A Sra. poderia falar um pouco sobre o projeto Educadores Brasileiros Abolicionistas Veganos (EBRAV)?

JACOBS: O EBRAV é uma tentativa de sabermos mais sobre os educadores que estão fazendo o que tentamos fazer nas escolas. Primeiro precisamos identificar quantos são, de que forma atuam, quais suas dificuldades, enfim, para que possamos traçar estratégias coletivas para articulação e reivindicação aos órgãos de educação formal do poder público. Estamos em processo de identificação destes educadores. Precisamos agora compilar os dados recebidos das questões que disponibilizamos. Como todo trabalho é voluntário, precisamos organizar novo encontro com o grupo já articulado, em reunião em Ponta Grossa, em 2012.

 

LIGA: Gostaríamos de terminar essa entrevista pedindo que a Sra. indicasse alguns livros e/ou artigos que deveriam ser leitura de cabeceira para as pessoas que querem se tornar educadores veganos.

JACOBS: indico esses:

BRÜGGER, P. Educação ou adestramento ambiental? 3 ed. Chapecó: Argos; Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004.

BRÜGGER, P. Nós e os Outros Animais: especismo, veganismo e educação Ambiental. In: Revista Linhas Críticas. V. 15, n. 29, p. 197-214. jul/dez, 2009. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-04312009000200002&lng=en&nrm=iso Acesso em: 19 out. 2012.

DENIS. L. Contraponto. Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), 2010. Disponível em: http://www.anda.jor.br/20/09/2010/contraponto Acesso em 15 jul. 2012.

FELIPE, S. T. Antropocentrismo, Senciocentrismo, Ecocentrismo, Biocentrismo. Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), 2009. Disponível em: http://www.anda.jor.br/?p=19279. Acesso em 13 jul. 2012.

_____________. Ética ambiental biocêntrica: limites e implicações morais. Anais do Seminário Internacional “Experiências de Agenda 21: os desafios do nosso tempo”. Ponta Grossa, 2009. Disponível em: http://eventos.uepg.br/seminariointernacional/agenda21parana/palestras/08.pdf

____________. Os limites da ética senciocêntrica. Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), 2009. Disponível em:  http://www.anda.jor.br/23/01/2009/os-limites-da-etica-senciocentrica

_____________. Direitos Animais: desdobramentos das pregas morais. In: ANDRADE, S. (Org.) Visão Abolicionista: ética e direitos animais. São Paulo: Libra Três, 2010. (p. 11-28)

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

LIMA, J. E. Identidade, ideologia e antropocentrismo. Pensata Animal. Revista de Direitos Animais. n. 11, ano 2. Maio, 2008. Disponível em: http://www.pensataanimal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=199:identidadeideologia&catid=68:joaoregis&Itemid=1. Acesso em: 09 jul. 2011.

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SINGER, Peter. Libertação Animal. Porto Alegre: Lugano, 2004.