Abolicionismo animalista dentro e fora da escola

O tempo passa e com ele vamos amadurecendo e reavaliando nossas posturas, buscando a formas mais efetivas de agir na práxis abolicionista animalista. Aprendi nesses anos todos que uma das coisas mais importantes são os companheiros firmes no mesmo objetivo, na práxis pela Libertação Animal, sem desvios, medos ou fraquezas. Porém, como atuo dentro e fora da escola, digo que dentro dela estamos na grande maioria das vezes sozinhos. O que podemos ter é o apoio na forma de não-entrave, de abertura para o debate, o que já é uma grande vantagem. Leon Denis há tempos traz esta discussão. Para além dos portões da escola, no ativismo “pé na porta”, como cita Marcio de Almeida Bueno, temos nossos companheiros abolicionistas veganos, nos grupos e movimentos dos quais fazemos parte. E se por um lado, dentro da escola, as ações são solitárias, por outro, elas são permanentes. E se fora da escola, no ativismo dos movimentos abolicionistas animalistas, as ações são pontuais, por outro, elas são também coletivas. Em ambas as situações, com todas as dificuldades, não há como esperar para que as coisas melhorem sozinhas. Gandhi nos empurra, lembrando que precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo.

Quando nos deparamos com o holocausto animal, algo tão dolorido emerge que queremos divulgá-lo a todos, como se essa grande descoberta bastasse para que todos mudassem suas posturas. Cremos, mesmo que por pouco tempo, que somente as imagens ou os relatos e argumentos nos livros são suficientes para a mudança de visões de mundo. Achamos que o simples fato de exibir filmes como “Terráqueos” ou “A Carne é Fraca”, dentre tantos, é o suficiente. Esta postura é o reflexo do nosso próprio choque inicial, do despertar da nossa consciência animal adormecida, que nos conduziu ao veganismo. Dentre choros contidos, saídas da sala e comentários horrorizados diante de algumas cenas, achamos que tudo isso ficará tatuado para sempre nas consciências de quem assiste. Mas cada um reage de uma forma, e o mais crucial, cada um terá um ambiente mais ou menos propício para cultivar e resgatar definitivamente a sua consciência animal. Mesmo vendo tudo que já vimos.

Sim, as imagens causam impacto, mas precisam de uma estratégia, de um planejamento como recurso pedagógico e não como fim em si mesmo, para que a ação não seja vã, ou pior, contrária a tudo que almejamos. Algumas pessoas nunca mais serão as mesmas após estes filmes, buscarão mudar posturas perante este holocausto, mas outras, e arrisco em dizer, a maioria, mesmo dentre sustos e lágrimas, tornam isso tudo efêmero, e logo forçam o esquecimento, ou ainda, reforçam suas velhas justificativas, preservando suas zonas de conforto. Além daqueles que negam até o fim tudo que viram, por motivos diversos, de ordem pessoal ou corporativa. De relutantes a damascenos, como aborda Tom Regan, temos inúmeros caminhos, uns abruptos, como um tombo ladeira abaixo, outros repletos de obstáculos, pedras postas por nós mesmos e que somente nós podemos retirá-las.

Para todos os casos, precisamos estar alertas, no apoio, firmes e serenos, pois o que distingue um relutante de um damasceno é que o primeiro ainda está parado ou caminhando lentamente, e o segundo já consegue chegar à primeira fase do percurso: o resgate de sua consciência animal. A partir daí, o que fazer? Um vegano vai além, buscando um novo modo de viver sem alimentar o holocausto animal, mesmo dentro dessa civilização entorpecida e especista. Um abolicionista avança nesta caminhada, pois, além de vivenciar o veganismo, busca denunciar o holocausto animal e divulgar aos demais a possibilidade de viver sem alimentar essa lógica. Mas um abolicionista não tem como pular a etapa do veganismo, pois precisa dar o testemunho vivo dessa possibilidade cotidiana individual. É disso que as pessoas precisam, do exemplo vivo, e não de mais hipocrisia.

O ativismo pelos Direitos Animais tem muito a ganhar com a abordagem pedagógica libertária, e vice-versa. E não estou falando de algo inédito, pois sabemos que essa reciprocidade já faz parte da prática de muitos. Em ambas as situações, a cada oportunidade, abordamos o tema, desmentimos a mídia medíocre, dissecamos o modelo de produção e consumo hegemônico, transcendemos o superficial, mostramos o quanto é mentirosa a felicidade embutida em cada imagem de um animal fofinho em cada rótulo ou propaganda. Mas partimos do diálogo, nas oportunidades de intervenção.

O diálogo nos permite identificar em cada um a sua predisposição em resgatar sua consciência animal. E neste momento crítico de despertar precisamos mostrar as possibilidades, a contra-hegemonia abolicionista vegana. Externar aos interessados, quando somos indagados, as nossas buscas e conquistas cotidianas por não-violência, e as nossas insuperáveis contradições, enquanto parte de uma civilização onde o especismo é parte de sua engrenagem. Mesmo assim, podemos fazer a diferença e mais, mostrar como fazer a diferença para os bilhões de animais não-humanos, vítimas do holocausto permitido.

É neste ponto que o público muda, pois um primeiro momento envolve a intervenção pedagógica com os que querem e com os que não querem saber do holocausto animal. Já num segundo momento, após a intervenção inicial, precisamos trabalhar com os que ficam, com os predispostos de forma diferenciada, com os que nos indagam e nos provocam. Oficinas sobre alimentação vegetariana, grupos de estudos sobre os temas abolicionistas diversos, vivências e formações com ativistas mais experientes, dentre tantas outras práticas, são exemplos de atuações com um público que já está predisposto à mudança.

A abordagem educativa no ativismo abolicionista vegano, neste sentido, é dialética, auto-reflexiva e permanente, tudo que autores-referência em educação libertária preconizam, como o mestre Paulo Freire. Mas ela vai além, é biocêntrica, pois busca resgatar a nossa essência, aquilo que nos religa ao todo vivo, à nossa identidade comum terráquea. Buscamos por abaixo a hierarquia especista e construir uma nova visão de mundo, uma relação de pertencimento e não de dominação, onde a questão de ser ou não um animal humano passa a ser encarada como um mero detalhe. Pena que nem todo educador seja um abolicionista animalista, mas o contrário certamente o é, dentro ou fora da escola.